Por todo lado encontramos nomes de terras. Nas placas da estrada, na correspondência e, mesmo numa trivial conversa, são ditos e relembrados. A toponímia – o conjunto dos nomes dos lugares – é uma das manifestações patrimoniais e culturais mais antigas que temos.
Ao contrário de uma igreja, este património não tem uma forma física e também não se degrada com a chuva. Evolui e modifica-se com a evolução da linguagem, a tal ponto que, por vezes, é muito difícil explicar a sua razão de ser.
Este é um dos temas abordados pela dissertação de mestrado de Anita Pereira Tavares, “A Medieva Terra de Cambra: Território e Sociedade” (Tavares, 2013)Tavares, A. P. (2013). A Medieva Terra de Cambra: território e sociedade. Volume I [Tese de Mestrado, Universidade de Coimbra]. https://doi.org/10316/81344, orientada pela Professora Doutora Leontina Ventura. A partir de um corpus de 160 documentos que vão do século X ao século XIV, a autora reconstruiu o território, a economia e a sociedade daquele que era então o julgado de Cambra. E o primeiro capítulo dessa reconstrução é, precisamente, dedicado aos nomes.
Um nome é um fóssil.
A imagem é da própria autora: o topónimo funciona como um fóssil. Quanto mais antigo, maior é a descoberta que permite. E, tal como um fóssil, o nome sobrevive àquilo que lhe deu origem – sobrevive até à língua que o criou. Quando essa língua desaparece, o significado cristaliza e o nome torna-se opaco: continuamos a dizê-lo diariamente sem fazer ideia do que ele quer dizer.
Na documentação medieval de Cambra foram identificados 104 topónimos. Destes, apenas 19 não foi possível localizar no atual território de Cambra. Todos os outros atravessaram séculos e continuam aí, ditos por pessoas que já não falam a língua em que foram criados.
A maioria tem origem latina – o que era de esperar, num território romanizado. Mas há também nomes vindos do céltico, do germânico, do gótico, do árabe, do hebraico, do grego, do castelhano. E é num deles que está a resposta à pergunta mais óbvia de todas.
De onde vem o nome “Cambra”?
Nas monografias locais correm há décadas várias explicações. Que Cambra seria uma corruptela1 de Câmara, por Macieira ter sido Câmara do Bispado de Coimbra. Que viria de uma degradação de Coimbra. Que teria origem em Santa Maria de Caima, cruzando o orago de Macieira com o nome do rio.
Anita Tavares testa cada uma destas hipóteses contra a documentação – e rejeita-as todas, por uma razão simples e muito instrutiva: esses nomes nunca aparecem nos documentos. Nem a expressão “Câmara do Bispado de Coimbra” é corrente, nem “Santa Maria de Coimbra” designa alguma vez Cambra (designa sempre a Sé), nem “Santa Maria de Caima” surge alguma vez. Uma explicação bonita que não tem prova documental continua a ser apenas uma explicação bonita. Isto, por si só, já é uma aula de método histórico.
A hipótese que a autora considera mais sólida – seguindo o toponimista Joaquim da Silveira – é outra, e bem mais antiga.
A forma medieval do nome é Calambria, que aparece na documentação também como Calanbria, Kalambria, Caambria ou Caanbria. As duas sílabas finais contêm o elemento céltico ‑briga, que significa altura fortificada, castro. É um elemento extraordinariamente comum na toponímia arcaica da Península – está em Conímbriga, em Lacóbriga, em Mirobriga. Por evolução fonética regular, ‑briga deu ‑bria, que é exatamente o que encontramos nas formas medievais do nome (Silveira, 1914, 121-125)Silveira, J. (1914). Toponymia Portuguesa: (Esboços). Revista Lusitana: archivo de estudos philologicos e ethnologicos relativos a Portugal, 17, 121–125..
E há um lugar a corresponder ao nome: um sítio antigo, com apenas alguns indícios, situado numa altura que pertence à freguesia de Vila Cova de Perrinho, junto à linha divisória com Macieira de Cambra. Chama-se, ainda hoje, Castro de Cambra (Vasconcelos, 1902, 54-55)Vasconcelos, J. L. de. (1902). Notícias várias: 1. Antiguidades dos arredores de Macieira de Cambra. O Archeologo Português, I, VII(1), 54–55..
Ou seja: o nome do concelho é, na prática, um artefacto anterior à romanização e que continua em circulação. Um eventual povoado fortificado deu o nome à terra; a terra deu o nome ao vale; e o vale deu o nome ao concelho, oficialmente fixado como Vale de Cambra pelo Decreto n.º 12 976, de 31 de dezembro de 1926.
Quanto às primeiras aparições escritas: o topónimo “Calambria” surge pela primeira vez em 1019, quando D. Matilde doa ao mosteiro da Vacariça a villa de Castelões. E a primeira referência inequívoca a Cambra como território data de 1098 – um documento sobre a igreja de São Pedro de Castelões, situada “in territorio Calanbrie”, junto ao rio Caima, sob o monte Zebreiro (Tavares, 2013)Tavares, A. P. (2013). A Medieva Terra de Cambra: território e sociedade. Volume II [Tese de Mestrado, Universidade de Coimbra]. https://doi.org/10316/81344.
A paisagem escrita nos nomes.
Se o nome do concelho guarda um eventual povoado fortificado, os nomes das aldeias trazem-nos à memória outra coisa: a economia, a fauna e a flora. Anita Tavares organiza-os por classes, e a lista é reveladora.
A flora (fitotoponímia).
Ervedoso (do ervedo, o medronheiro), Macieira e Macinhata, Felgueira (feto), Junqueira (junco), Salgueira, Ameal (amieiro, árvore de margem de rio), Azevedo, Carvalha, Pinheiro, Baçar, Covilhó, Lordelo.
Alguém, há muito tempo, chamou ao sítio que hoje conhecemos como Ervedoso “o lugar dos medronheiros” porque, muito provavelmente, era isso que lá crescia – e a informação botânica ficou lá, presa ao nome, muito após o medronhal ter desaparecido.
A fauna (zootoponímia).
Coelhosa, Cabril e Cabrum (a criação de cabras), Perrinho e Zebreiros.
Este último nome, Zebreiros, merece um parágrafo próprio. O zebro era um equídeo selvagem que povoou a Península até à Idade Moderna, quando se extinguiu. A serra que na documentação medieval de Cambra aparece constantemente como monte Zebreiro – “subtus montem Zebrario” – é a que hoje chamamos Serra do Arestal. Aqui há uma lição adicional: os topónimos são conservadores, mas não são imortais. Este perdeu-se enquanto nome de serra e sobreviveu apenas no lugar de Zebreiros, hoje já no concelho de Sever do Vouga. O animal extinguiu-se; o nome quase.
A economia (as atividades).
Armental, Currais, Bouça, Campo, Gandra, Póvoa, Vilar e Vilarinho, Tabaçô, Rótea.
Aqui os nomes já não referem à natureza e associam-se ao trabalho. Armental remete para a criação de gado maior; Currais, para os cercados onde os animais se recolhiam; Bouça, para o terreno inculto arroteado; Vilar e Vilarinho, para pequenos núcleos de povoamento derivados da villa romana.
E o mais interessante é que a documentação confirma o que os nomes prometem. Nos foros pagos em lugares como Areias, Arões ou Cabril, as Inquirições registam pão, pão meado, pão branco, broas, vinho, centeio, cevada, linho, capões, frangos, porco, espádua, leitão, cabrito, carneiro, queijo e manteiga. A pecuária, aliás, terá tido mais peso do que a cerealicultura: os animais aparecem com mais frequência do que os cereais no pagamento das rendas. Terra de gado – tal como Armental e Currais sugeriam.
A geografia, a água, as pessoas e os santos.
Há ainda os nomes que descrevem o relevo – Outeiro, Lomba, Chã, Calvela, Areal, Areias, Barreiro, Vale – e os que descrevem a água, como Agualva.
E há uma classe particularmente rica: os antropónimos, isto é, nomes de lugar formados a partir de nomes de pessoas – Teamonde, Sandiães, Gaínde, Janardo, Cartim, Tagim, Folhense, Arões, Rôge. A maioria é de origemgermânica, o que constitui um vestígio direto dos séculos suevo-visigóticos. Cada um destes nomes é a sombra de um proprietário concreto, cujo nome próprio se colou de tal forma à sua terra que lhe sobreviveu ao longo dos anos. Finalmente, os hagiotopónimos – São Bartolomeu, São Veríssimo – e os oragos que passaram a identificar as freguesias.
A permanência: o nome de um concelho que quase não se alterou.
Nas Inquirições de 1220 são nomeadas as freguesias de Castelões, Cepelos, Junqueira, Rôge, Macieira e Vila Chã. Nas de 1284 aparecem já com os respetivos oragos: São João de Cepelos, Santa Maria de Macieira de Cambra, Santa Maria de Vila Chã, São Miguel de Junqueira, São Pedro de Castelões, São Salvador de Rôge e São Tiago de Codal.
Todas existem hoje. A que se juntam Vila Cova de Perrinho, que então estava integrada em Rôge, e Arões, que fazia parte de Junqueira.

Dos 82 lugares identificados nas Inquirições e que foi possível localizar, pouquíssimos ficam hoje fora do concelho – Mosteirô (Oliveira de Azeméis) e Zebreiros, Barreiro, Lourisela e Parada (Sever do Vouga). A autora conclui que poucos concelhos portugueses podem reclamar uma correspondência tão próxima entre os limites atuais e os do julgado medieval. Nem tudo sobreviveu, claro. O termo villa, usado nos documentos latinos, desaparece depois de 1285 e é substituído por aldeia. E nas Inquirições de 1220 Macieira aparece com um nome que não vingou – Conçieiro –, eco de uma forma que já surgia em 1056 (Sancte Marie de Conciliario). Nomes também morrem.
- Corruptela significa uma palavra dita ou escrita de forma errada, uma mudança na forma original de algo, ou um ato de corrupção ↩︎

