Trinta anos à espera de água (1931-1965)

Em maio de 1935, uma pergunta curta, quase exasperada, saltava das páginas do Jornal de Cambra diretamente para o executivo da Câmara Municipal: «A água, Sr. Presidente, quando vem a água que abasteça toda a povoação e dê valor aos mercados de Vale de Cambra?».

Hoje, abrir uma torneira em casa parece-nos um gesto automático e banal. Mas na sede do concelho de Vale de Cambra, à época um dos lugares com maior densidade populacional e com maiores necessidades de salubridade, esse gesto demorou mais de três décadas a sair do papel.

No início dos anos 30, quem vivesse na vila e precisasse de água potável tinha poucas escolhas. Havia o fontanário junto à Feira do Gado — mandado erguer pela benemerência do Comendador Luís Bernardo de Almeida —, uma fonte pública no Ribeiro da Granja e uma torneira de pistão na estrada do fundo da vila. Apenas um punhado de casas mais abastadas contava com água encanada, puxada a partir de dez poços particulares. Para todos os outros, o quotidiano fazia-se de cântaros e bilhas à cabeça, percorrendo distâncias longas, enquanto os dias de feira deixavam um rasto de insalubridade no centro urbano e o receio de incêndios permanecia sem resposta.

O projeto de 1931: três fontanários e uma torneira de mola

A primeira tentativa formal para resolver o problema foi a 26 de dezembro de 1931. Nesse dia, o presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, Dr. Domingos de Almeida Brandão, enviou ao Governador Civil de Aveiro um anteprojeto orçamentado em 37.903$00 (revisto em novembro de 1932 para 53.382$19).

A ambição era modesta e ainda não passava por levar água a casa dos moradores. O único edifício com direito a ligação direta era o dos Paços do Concelho. Para a população, projetavam-se três marcos fontanários em alvenaria hidráulica, com uma placa a 75 centímetros do chão para pousar os cântaros e uma torneira de pistão com mola: um na placa central do «cruzamento das Avenidas», outro no cruzamento da avenida transversal com a Estrada Nacional n.º 32-2.ª e um terceiro a poente, na rua paralela ao Mercado Municipal. Previa-se também um ramal para acudir ao Matadouro Municipal até que os Serviços Hidráulicos cedessem água da Vala de Burgães. O Médico Municipal, Dr. Augusto Correia do Amaral, não hesitou em classificar a obra como «o melhoramento mais útil e necessário».

Não chegou a avançar. Em julho de 1933, a Administração-Geral dos Serviços Hidráulicos devolveu o projeto à Câmara com uma lista implacável de reparos: faltavam análises bacteriológicas, não se sabia sequer quanta água brotava da mina, o reservatório projetado provocaria uma pressão excessiva nas tubagens e o orçamento era considerado exagerado.

O processo entrou num impasse. Enquanto a Câmara concentrava os seus orçamentos na abertura de estradas para ligar as freguesias entre si, as populações viam concelhos vizinhos mais pequenos receberem comparticipações do Fundo de Desemprego e inaugurarem as suas redes. A febre tifoide continuava a rondar os poços contaminados.

Anos 40: água ao domicílio, o lavadouro do Muradal e o problema do estio

Foi preciso entrar na década de 1940 para o desenho técnico ganhar outra escala. Pela mão do engenheiro José Magalhães (da Sociedade de Engenheiros do CEM, Lda., do Porto), surgiu finalmente um projeto pensado para o abastecimento domiciliário de uma vila que contava então com cerca de 1.200 habitantes.

O plano, orçamentado em 456.754$92, ia muito além dos canos de ferro fundido. Olhava de frente para a higiene pública da sede do concelho:

  • Previa a construção de retretes públicas subterrâneas junto ao Mercado Municipal (revestidas a “lambrim”1 de azulejo e pavimento de mosaico), indispensáveis para pôr cobro à falta de condições sanitárias nos dias de grande afluência à feira;
  • Projetava um lavadouro público no Muradal, em granito e betão armado, com doze lugares independentes para a lavagem de roupa;
  • Incluía uma fossa séptica para travar os efluentes e maus cheiros do Matadouro.

Nos papéis do arquivo municipal ficaram também registados os retratos sociais da época: para rasgar as valas e erguer os muros, um canalizador ganhava 2$50 à hora, um canteiro 2$00, um pedreiro 1$50, um cabouqueiro 1$10, um trabalhador 1$00 e um «rapaz» apenas 0$60.

Mas havia um problema para o qual não se encontrava solução: a falta de água no verão.

Em setembro de 1949, um estudo hidrogeológico assinado pelo engenheiro Alexandre R. Ferreira Chaves confirmava aquilo que se temia. As minas pesquisadas desde 1946 no lugar das Amarelas (a 4 km a noroeste da vila) chegavam para abastecer Macieira de Cambra, Ramilos, Praça, Lourosa, Cruz de São Domingos e Granja, mas não aguentavam o consumo de Vale de Cambra, Vila Chã e Muradal durante os meses secos — que em certos anos se estendiam até dezembro. A solução proposta passava por descer à bacia do rio Caima, a um quilómetro a sul da vila, e abrir um poço de dez metros de profundidade com duas galerias para captar «águas baixas».

Onde se procurou e por onde correu a água (1931–1972)

O mapa distingue as infraestruturas efetivamente executadas (círculos cheios e condutas a linha contínua) dos projetos e captações que ficaram apenas planeados ou estudados sem ligação à sede do concelho (círculos vazios tracejados e condutas a linha tracejada). Use os filtros abaixo para ver apenas o que foi construído ou o que ficou em estudo, escolha uma época e clique num ponto ou numa freguesia. Pode ampliar suavemente o mapa com os botões + e − (ou com Ctrl e a roda do rato) e arrastá-lo com inércia.

Aviso: se vê esta linha, o script das interações não está a correr neste bloco. Os mapas e tabelas aparecem, mas os cliques e os filtros não funcionam.

  • Executado (captação / depósito construído)
  • Conduta executada (rede efetiva)
  • Planeado / Estudado (não ligado à sede)
  • Adução estudada (não executada)
  • Anos 30
  • Anos 40
  • Anos 50
  • Anos 60–70
Santa Maria da FeiraAroucaAlbergaria-A-VelhaOliveira de FradesSever do VougaSão Pedro do SulOliveira de AzeméisSão Pedro de CastelõesVila Chã, Codal eVila Cova de PerrinhoMacieira de CambraJunqueiraCepelosRôgeArõesEXECUTADO: Conduta Adutora Principal (Decide / Sr.ª da Saúde / Gestoso → Reservatório Leste → Vila → Pinheiro Manso)EXECUTADO: Adução Primitiva e Rede do Muradal (Galerias do Matadouro → Vila / Muradal)PLANEADO (NÃO EXECUTADO PARA A SEDE): Eixo Gravítico estudado em 1946–1949 (Minas das Amarelas → Macieira / Vila)PLANEADO (NÃO EXECUTADO): Conduta Elevatória estudada em 1949 (Poço da Bacia do Caima → Vila)PLANEADO (NÃO EXECUTADO): Ligação complementar estudada em 1954–1960 (Chãs da Junqueira → Gestoso)Vila de Vale de Cambra (Sede)[Executado · Rede Domiciliária 1963]Galerias do Matadouro e Muradal[Executado · Minas e Rede 1968]Reservatório da Encosta Leste[Executado · Cota 276,5 m · 400 m³]Pinheiro Manso e Cimo de Aldeia[Executado · Rede Industrial e Domiciliária]Nascentes de Gestoso[Executado · Captação Principal 1954–72]Monte do Carvalhal das Fontes[Executado · Reforço Sr.ª da Saúde 1970]Captação do Lugar de Decide[Executado · Pesquisas 1956 e Encanamento 1969]Minas das Amarelas[Não ligado à Sede · Explorado 1946–50]Poço da Bacia do Rio Caima[Não executado · Projeto de Recurso 1949]Chãs da Junqueira[Não executado · Estudo 1944–1960]2 kmN

Anos 50: a nascente de Gestoso e o peso da Martins & Rebello

A solução do Caima revelava-se cara e complexa. Já na década de 1950, a Câmara mudou de estratégia e expropriou uma nascente de excelente pureza natural numa zona arborizada de Gestoso, dando origem ao projeto de finais de 1954, completado com prospeções no lugar da Decide (São Pedro de Castelões) em 1956 e 1957.

Foi aqui que o processo embateu num novo obstáculo: a escala industrial de Vale de Cambra.

Para o Estado — que desde 1944 traçara a meta de dotar todas as sedes de concelho com água domiciliária no prazo de vinte anos —, a rede não podia servir apenas para uso doméstico. Tinha de alimentar a pujante indústria local. Em 1957, a Direção dos Serviços de Salubridade exigiu que ficasse previamente resolvido o abastecimento à grande fábrica de laticínios da firma Martins & Rebello, no Pinheiro Manso.

A conduta adutora — com mais de 6 quilómetros em tubos de fibrocimento — fora dimensionada para transportar 630 m³ diários (chegando a reservar 200 m³ para a unidade do Pinheiro Manso), embora um inquérito camarário posterior tenha reajustado as necessidades efetivas daquela fábrica para 20 m³/dia, num total de pelo menos 50 m³ diários destinados a todo o setor industrial da área.

As negociações entre a Câmara e a Martins & Rebello arrastaram-se até julho de 1959. Pelo meio, a autarquia ainda alimentou a esperança de aproveitar uma represa agrícola prevista pelos Serviços Hidráulicos para a Chã de Junqueira, até lhe ser comunicado oficialmente que essa água nunca serviria para consumo público.

Só a 12 de fevereiro de 1960 a Comissão de Revisão da Direção-Geral dos Serviços de Urbanização deu luz verde definitiva ao projeto (o Processo n.º 220-A). Perante trinta anos de avanços e recuos, os engenheiros do ministério decidiram ser pragmáticos: aprovaram a rede para a vila, Vila Chã, Muradal e Pinheiro Manso, fixaram o preço da água doméstica em 3$00 por m³ — subsidiado pelo preço mais alto cobrado às fábricas — e deixaram a ligação às freguesias vizinhas para mais tarde.

28 de maio de 1963: a água chega às torneiras (mas não chega para todos)

Para pagar a obra, divulgada na imprensa com um orçamento de cerca de 1.500 contos, a Câmara contraiu três empréstimos na Caixa Geral de Depósitos entre 1960 e 1963, num total de 1.335.000$00 (que o Estado acabaria por cobrir na íntegra em 1969 através de um reforço de comparticipação de 1.378.628$00). Previu-se a contratação de um canalizador por 12.000$00 anuais e de um leitor-cobrador por 5.400$00 ao ano, que acumulava a leitura dos contadores da água e da eletricidade.

Finalmente, a 28 de maio de 1963, com o Ministro do Interior e os Subsecretários de Estado das Obras Públicas e da Educação Nacional na vila, inaugurou-se o abastecimento domiciliário de água a Vale de Cambra.

As primeiras listas de consumidores obrigatórios mostravam o peso do tecido produtivo cambrense no escalão máximo (15 m³): lá estavam a Martins & Rebello, a Lacto Lusa, a Preval, a FEMACO, a Gráfica Cambrense, a Almeida & Freitas, a Bastos & Brandão e Arlindo Soares de Pinho. Por essa altura, os moradores e empresários de Cimo de Aldeia — liderados por Jerónimo Ferreira Gomes, gerente da Auto Ideal do Pinheiro Manso — subscreviam uma petição a pedir o prolongamento da rede em 400 metros para terem água.

Por sua vez, em 1965, a Junta de Freguesia de Macieira de Cambra, pela mão do seu presidente Bernardo Soares Coelho, enviava uma exposição sentida à Câmara. Lembrava que a vila de Macieira continuava sem um único fontanário capaz e pedia para aproveitar as antigas minas das Amarelas que a sede do concelho deixara para trás. E a parte alta do Muradal só viu o seu ramal projetado e orçamentado em março de 1968, passando pelos terrenos onde hoje se encontram a Escola Tecnológica e o Posto da GNR.

Contudo, no verão, as torneiras continuavam a perder força. Os mapas de faturação de 1969 são claros: se em janeiro se faturavam quase 8.000 m³ (7.969 m³) de água na vila, em agosto o volume caía para menos de metade (3.601 m³) por escassez nas nascentes. Entre 1969 e 1972, a Câmara teve de voltar ao terreno para reiniciar os trabalhos na captação da Decide, comprar o «Monte do Carvalhal das Fontes» (junto à antiga estrada da Senhora da Saúde) ao professor Silvério Tavares Pinheiro, adquirir mais uma nascente em Gestoso e adjudicar a abertura de novas minas para reforçar o caudal.

Olhar hoje para as pastas amarelecidas do Arquivo Municipal e para as páginas do Jornal de Cambra é perceber que o progresso urbano raramente foi percorrido numa linha reta. Entre os gabinetes de Lisboa, a prudência financeira da autarquia, as fábricas e a população nos fontanários, a água potável demorou trinta anos a percorrer poucos quilómetros de serra até às casas da vila.

Fontes e Referências Bibliográficas

  • Arquivo Municipal de Vale de Cambra (AMVC): Fundo de Obras Públicas e Abastecimento de Água — Processos de abastecimento de água à sede do concelho (1931–1972), incluindo o Anteprojeto de 1931/1932, o Projeto da Sociedade de Engenheiros do CEM, Lda. (década de 1940), o Estudo de Captação de Alexandre R. Ferreira Chaves (1949), o Processo n.º 220-A (1954–1972) e a Exposição da Junta de Freguesia de Macieira de Cambra (1965).
  • Jornal de Cambra (JC): II Série, números publicados entre 10 de julho de 1931 e 30 de dezembro de 1963 (e números avulsos de 1968 e 1969), Vale de Cambra.
  • Direção-Geral dos Serviços de Urbanização [DGSU]. (1946). Elementos estatísticos relativos ao ano de 1946 – Relatório. Boletim da Direção-Geral dos Serviços de Urbanização, 3, 233–346.
  • Direção-Geral dos Serviços de Urbanização [DGSU]. (1948). Relatório da Direção-Geral dos Serviços de Urbanização de 1948. Lisboa: Ministério das Obras Públicas.
  • Direção-Geral dos Serviços de Urbanização [DGSU]. (1957). Atividade da Direção-Geral nos anos de 1955-1956-1957. Boletim da Direção-Geral dos Serviços de Urbanização, 1, 1–91.
  • Rodrigues, A. (2011). O abastecimento de água à sede do concelho de Vale de Cambra: Uma primeira abordagem. Vale de Cambra: Câmara Municipal de Vale de Cambra.
  • Santos, A. M. (1946). Evolução e situação atual dos problemas de abastecimento de água e drenagem dos esgotos nos núcleos urbanos do País. Boletim da Direção-Geral dos Serviços de Urbanização, 1, 87–92[cite: 1, 2].
  1. O lambrim (ou lambril) é um revestimento aplicado na parte inferior ou em toda a extensão das paredes e tetos, servindo para fins decorativos e de proteção. ↩︎