Na freguesia de Cepelos, o Outeiro dos Riscos destaca-se como um imponente penedo de granito onde, há milénios, as antigas comunidades gravaram círculos concêntricos e outros motivos que ainda hoje desafiam a nossa compreensão. Do seu cume, avista-se grande parte do concelho, numa perspetiva ampla que se abre para o mar: o olhar acompanha primeiro o curso profundamente encaixado do rio Caima, desce até ao vale fértil onde este se junta ao rio Vigues e alcança, mais ao longe, a poente, o recorte da ria e a linha do oceano.
Em contraponto a esta vasta abertura para o litoral, o antigo povoado do Castro de Chão de Carvalho volta-se para as terras de montanha. Embora a sua memória se encontre mais esbatida pela passagem do tempo, a sua presença perdura na robustez do sistema amuralhado, a partir do qual se domina e vigia o interior mais profundo e acidentado do concelho.
Entre a altitude destes testemunhos rupestres, os amuralhados dos primeiros povoados e as torres das fábricas, estende-se uma geografia de transição, densa e sucessivamente habitada. A paisagem que estas vistas complementares abarcam está, assim, repleta de memórias e histórias dos nossos antepassados, constituindo o ponto de partida ideal para lermos o longo percurso de quem moldou este território.

Os testemunhos mais antigos conhecidos no nosso concelho são de natureza funerária. As mamoas (tumuli de terra e pedra, por vezes com câmara de esteios) distribuem-se por quase todas as freguesias, surgindo, em geral, agrupadas em necrópoles nos planaltos. Datam, grosso modo, de um período que se estende do Neolítico à Idade do Bronze, embora a escassez de escavações nos obrigue a considerar intervalos temporais bastante alargados.
Na Mamoa de Valinhos, em São Pedro de Castelões, a escavação dirigida por Fernando Pereira da Silva na década de 1990 permitiu recolher dezanove utensílios em pedra. Entre eles contam-se pontas de seta, lâminas e micrólitos, que indiciam atividades como a caça e o corte de vegetais. A construção destes locais exigiu um enorme esforço por parte de comunidades que, apesar de viverem de forma precária, conseguiram movimentar toneladas de pedra e terra para homenagear os seus mortos. A tendência mais tardia observada no concelho, caracterizada por câmaras mais pequenas e monumentos menos visíveis na paisagem, aponta para a adoção de novas práticas funerárias, nas quais a incineração começou a ganhar terreno face à inumação.
As gravuras rupestres constituem a outra grande herança desta época. O Outeiro dos Riscos é composto por dois núcleos distintos: um penedo monumental, com cinco painéis virados a nascente, onde predominam círculos concêntricos, covinhas e linhas; e uma rocha rente ao solo, de painel único, que combina uma espiral com covinha central e uma grelha irregular. Este sítio foi dado a conhecer à comunidade científica por Alberto Souto, no Congresso Internacional de Pré-História de 1930, tendo sido classificado como Sítio de Interesse Público em 2013.
SUGESTÃO
Os Bronzes de Vila Cova de Perrinho
No Museu Municipal de Vale de Cambra há um pequeno conjunto de objetos de bronze com cerca de três mil anos. Aparecem na bibliografia arqueológica portuguesa e estrangeira com o nome de “depósito de Vila Cova de Perrinho”.

Na Sobidade, no Trebilhadouro, existe também uma rocha rasante ao solo que exibe sete painéis. Estes apresentam espirais, covinhas, motivos reticulados e figuras de feição antropomórfica ou híbrida (mistura de humano e animal), cujo significado exato permanece, ainda hoje, um mistério.
Datado do Bronze Final é o conjunto do Rossio, em Vila Cova de Perrinho. Descoberto no final da década de 1950 e divulgado por Domingos Pinho Brandão, restam deste achado doze peças — atualmente no Museu Municipal —, que incluem punhais, cinzéis e machados. A sua interpretação continua a dividir os especialistas: enquanto alguns consideram tratar-se de um depósito de fundidor, outros associam-no a um conjunto de achados dispersos.
O Castro de Chão de Carvalho, situado entre Arões e a Junqueira, conserva as ruínas de uma imponente muralha, com cerca de seis metros de espessura e quatro de altura, abrangendo uma área de perto de 2,5 hectares. A sua cronologia permanece em aberto — situando-se algures entre o Bronze Final e a Idade do Ferro, com uma possível ocupação romana —, uma vez que o espólio é muito escasso. Este resume-se a uma mó e a referências antigas a cerâmicas e vidros, cujo paradeiro atual é desconhecido.
Por sua vez, no Castelo de Sandiães (ou do Mau Vizinho), foram encontradas mós, pesos de tear e cerâmica de tipologia romana, mas a construção da Barragem Eng. Duarte Pacheco, entre 1939 e 1940, acabou por descaracterizar profundamente o local.

A presença romana propriamente dita revela-se, por enquanto, pouco visível no concelho. Uma bilha de tipologia funerária — encontrada fortuitamente em Gatão, durante a abertura de uma vala para canalizações — constitui, até ao momento, o único achado local que a arqueologia caracteriza como de possível cronologia romana. Também na zona do Algar (igualmente em Gatão, freguesia de Cepelos) foram identificadas cerâmicas de fabrico aparentado ao bracarense, fragmentos de telha e mós circulares, embora a cronologia desta ocupação possa já ser posterior à época romana.
Nas imediações, provenientes do Castro de Baralhas (em Ossela) — já em território do município vizinho de Oliveira de Azeméis —, o Museu Municipal guarda cinco moedas romanas. Foi igualmente nesta área limítrofe que José Leite de Vasconcelos noticiou, em 1896, a descoberta de um importante depósito composto por dezasseis braceletes em ouro. Este notável conjunto acabou, no entanto, por se dispersar entre ourives do Porto e de Ovar, encontrando-se hoje apenas uma parte salvaguardada no Museu Nacional de Arqueologia.
Contudo, num outro local denominado Moutides, em Macieira de Cambra, vieram a descoberto mós, fragmentos de tijolos e um «pavimento» de barro e areia, durante as terraplanagens para a construção do Matadouro da Uniagri. Estes achados indiciam a existência de um contexto de natureza semelhante ao de Vila Cova de Perrinho e, de certa forma, coincidente com a descrição deixada por Leite de Vasconcelos.
Este enquadramento geográfico e a partilha de vestígios recordam-nos um princípio fundamental: as atuais fronteiras administrativas não coincidem com a vivência territorial e a mobilidade das populações no passado.

A memória oral não é a única via para recuar no tempo. A própria paisagem esconde, muitas vezes, indícios que nos chegam através do olhar dos mais velhos. Em Vilar, a tradição oral preservou a lenda — ou, talvez, a história não escrita — de um antigo convento de freiras e da capela de Santa Marinha. Francisco Tavares da Costa, habitante deste lugar, partilhou uma das mais vivas memórias da ocupação medieval de Vale de Cambra.
Quem percorre hoje os terrenos a norte de Vilar, atento aos muros de sustentação de terras («combros»), poderá reparar em pedras silhares de faces trabalhadas, que denunciam uma clara reutilização. Segundo o Sr. Francisco, tratar-se-ão de despojos desse antigo convento. A vivência destas religiosas deixou, aliás, marcas na toponímia ligada à água: ainda hoje se recorda a «Fonte das Freiras», outrora a céu aberto e atualmente oculta sob a estrada, onde as mulheres iam encher os cântaros. Na descida para a ribeira, a «Leira da Ossía» (nome que evoca claramente ossuários) assinala o local onde se ergueria a capela de Santa Marinha e o respetivo cemitério, que acolhia também defuntos oriundos de Viadal. Quando estes campos foram «sorribados», no tempo dos bisavós dos atuais habitantes, a terra devolveu ossadas, sepulturas simples amparadas por duas pedras, vestígios do velho telhado e as contas de um terço.
A origem do topónimo Cambra tem sido alvo de várias interpretações, sendo frequentemente explicada como uma corruptela de «Câmara», de «Coimbra» ou até de «Santa Maria de Caima». No entanto, a tese mais consensual pertence a Joaquim da Silveira: a forma primitiva seria Calambria, termo que encerra o elemento céltico -briga («altura fortificada»), presente igualmente em Conímbriga. Em Vila Cova de Perrinho, junto à fronteira com Macieira de Cambra, existe o lugar de Castro de Cambra, frequentemente apontado como o antigo castelo que terá dado o nome à terra. Ainda assim, impõe-se prudência e o respeito pelos limites das fontes: embora o nome sugira um povoado em altura, escasseiam, até ao momento, provas arqueológicas conclusivas.
SUGESTÃO
Doações na Terra de Cambra: séculos X a XIV
Entre os séculos X e XIV, a rede de poderes e alianças na Terra de Cambra materializou-se numa complexa teia de transferências patrimoniais. Para desconstruir e ilustrar esta realidade, criámos um conjunto de elementos visuais e interativos a partir dos dados da investigação de Anita Pereira Tavares

A primeira menção escrita a Calambria data de 1019, constando do testamento de Matilli a favor do Mosteiro da Vacariça, num documento que inclui também a vila de Castelões. Já a primeira referência inequívoca a Cambra enquanto território surge em 1098, no contexto de uma venda de parcelas da igreja de São Pedro de Castelões. (Importa notar que o documento mais antigo da coletânea de Anita Tavares, datado de 922, foi provado ser falso, não possuindo validade histórica). O acervo documental sobre o Cambra medieval soma cerca de 160 diplomas: apenas três remontam ao século X e sete ao século XI, mas o volume cresce substancialmente nos séculos seguintes, contabilizando-se 20 registos no século XII, 50 no XIII e 80 no XIV.
A partir do século V, o território foi ocupado por povos suevos e, mais tarde, visigodos. Portadores de uma visão do mundo profundamente ancorada na ruralidade — em contraste com a predileção urbana dos romanos —, fundaram pequenos núcleos agrícolas que viriam a estar na base de muitas das atuais paróquias. Embora este período não tenha legado edifícios religiosos, necrópoles ou casais fisicamente identificados, o seu vestígio mais direto sobrevive nos nomes. A esmagadora maioria dos topónimos formados a partir de nomes próprios, como Teamonde, Sandiães, Arões ou Rôge, possui raiz germânica. Posteriormente, a invasão islâmica, a partir do século VIII, terá contribuído para obliterar muitos dos vestígios anteriores, justificando que só após o avanço da Reconquista as fontes escritas se tornem mais regulares.
As Inquirições de 1220 enumeram Castelões, Cepelos, Junqueira, Rôge, Macieira e Vila Chã, ao passo que as de 1284 lhes acrescentam Codal e os respetivos oragos — povoações que, notavelmente, subsistem até aos nossos dias. Dos 82 lugares identificados nos inquéritos régios de 1220, 1284 e 1288/90, muito poucos se situam fora do atual concelho, o que demonstra que a geografia do julgado medieval de Cambra coincidia, em grande medida, com os limites de Vale de Cambra. A toponímia fornece pistas valiosas sobre a economia da época: nomes como Armental, Currais, Bouça ou Vilar remetem para a pastorícia e para o arroteamento de terras. De igual modo, as rendas registadas nestas Inquirições revelam que o gado e os seus derivados — nomeadamente o queijo e a manteiga — assumiam um peso económico superior ao da produção cerealífera.
Entre as famílias que detinham bens em Cambra, a de maior poder e relevo foi, indiscutivelmente, a dos Cambras, um ramo secundário da linhagem dos Riba de Vizela, originária de Guimarães. O fundador desta estirpe foi o cavaleiro Afonso Anes de Cambra, filho de João Fernandes de Riba de Vizela e rico-homem nas cortes de D. Afonso II e D. Sancho II. Casado com Urraca Pires Ribeiro, o seu nome figura nas Inquirições de 1220. Sabe-se que, entre 1234 e 1242, adquiriu casais em Armental, Vila Cova de Perrinho, Cabanes e Junqueira, tendo, entre 1244 e 1247, doado à Ordem do Templo parte da sua emblemática quinta de Vila Nova, a qual compreendia dez casais e meio, uma igreja e um moinho.
O seu filho, Fernão Afonso de Cambra, deu continuidade a esta consolidação patrimonial: comprou uma herdade em Arões (1257), recebeu bens no Casal de Arão (1258) e, em 1278, procedeu a partilhas com a sua irmã Teresa Afonso, monja em Arouca. Na geração seguinte, o solar da família (a quinta de Vila Nova) ficou na posse do seu filho Martim Fernandes, nas partilhas de 1310 e 1311, enquanto as irmãs Maria e Berengária Fernandes — monjas de Lorvão e de Arouca — herdaram outros bens. Em 1333, Berengária acabaria por doar a sua quota de Vila Nova ao sobrinho, Fernão Afonso de Cambra II. A documentação espelha ainda a influência de outros ramos desta linhagem: em 1283, o cavaleiro Soeiro Nunes de Cambra doou aos Templários os bens do seu irmão Gonçalo Nunes (freire da Ordem) e, em 1333, João Martins de Cambra legou à Sé de Coimbra o padroado da igreja de São Pedro de Castelões.
Ao longo do século XIV, o senhorio de Cambra transitou por várias mãos régias e nobiliárquicas. Em 1371, D. Fernando doou a Mem Rodrigues de Seabra a Terra de Santa Maria e o julgado de Cambra, transferindo-os depois, em 1383, para o Conde de Barcelos. Após a crise dinástica, em 1385, D. João I agraciou Álvaro Pereira com a Terra de Santa Maria, Cambra e Refóios. A partir desta data, o destino de Cambra ficou intimamente ligado à ilustre Casa da Feira e à linhagem dos Pereira, cujo expoente, Rui Pereira, viria a ser instituído como primeiro Conde da Feira em 1481.

A 10 de fevereiro de 1514, no quadro das grandes reformas administrativas do reino, D. Manuel I concedeu foral à Terra de Cambra, então com sede em Macieira. O diploma elenca as terras abrangidas — entre as quais Arões, Cabril, Castelões, Codal e Chão de Carvalho —, bem como alguns lugares novos, à época em fase de povoamento. Mais do que um documento fundacional, interessava ao monarca a vertente fiscal: o texto regulamenta os foros a pagar pelos moradores e fixa, de forma reveladora da ancestral vocação agropecuária da região, a entrega anual de manteiga à Casa Real.
Este diploma não constitui, porém, a “certidão de nascimento” do concelho. O foral não institui os órgãos de poder local, que já operavam no território. O seu verdadeiro valor reside no reconhecimento oficial da importância e da vitalidade da Terra de Cambra no conjunto do reino. O Pelourinho de Macieira, de notável feição manuelina e quinhentista, ergue-se como o símbolo material dessa autonomia municipal, tendo sido classificado como Imóvel de Interesse Público em 1933.
Com a morte do último Conde da Feira, em 1700, o condado reverteu para a Coroa. Pouco depois, em 1708, a esmagadora maioria dos seus bens transitou para a recém-criada Casa do Infantado. Deste modo, Cambra ficou sob a alçada do Infante D. Pedro (futuro D. Pedro III).
É neste enquadramento setecentista que o território, à semelhança de todo o país, sofre o abalo do grande Terramoto de 1755. Embora a destruição tenha sido mais severa a sul, os seus ecos fizeram-se sentir um pouco por toda a parte, motivando o inquérito nacional encomendado pelo Marquês de Pombal para avaliar os danos e a demografia do reino. É precisamente nas respostas a esse inquérito — as Memórias Paroquiais de 1758 — que Cambra surge descrita e enquadrada na província da Beira, oferecendo-nos um retrato ímpar da época.
Beneficiando da prosperidade de Setecentos e, muitas vezes, do impulso de reconstrução e renovação pós-terramoto, a região viu a sua arquitetura religiosa profundamente enriquecida. Os séculos XVII e XVIII deixaram um rasto de inegável valor na pedra e na madeira das igrejas matrizes. No seu interior, o trabalho de talha dourada e policromada ilustra a evolução dos estilos artísticos, com retábulos que transitam da sobriedade formal do Maneirismo (inícios do século XVII) para a cenografia sumptuosa do Barroco e do Rococó.
O conjunto mais exuberante encontra-se em Rôge. O seu imponente cruzeiro, datado de 1765–1772 e elevando-se a cerca de catorze metros, assenta sobre quatro atlantes coroados. Em perfeito diálogo visual, a fachada da igreja do Divino Salvador exibe uma profusão ornamental barroca singular, animada por querubins, tritões-criança, mascarões, gárgulas e rãs, refletindo a audácia criativa dos mestres canteiros daquele período.

O século XIX trouxe ao território uma profunda instabilidade administrativa. O concelho de Macieira de Cambra, criado em 1832 e integrado no distrito de Aveiro em 1835, sofreu sucessivas supressões e restaurações: foi extinto em 1836, restaurado em 1840, novamente suprimido em 1896 e, por fim, restabelecido em 1898.
O seu núcleo central era a atual Praça da República, o único centro histórico urbano que subsiste preservado no concelho. Neste espaço destaca-se o pelourinho e a emblemática casa do “Ar Alto”. Edificada nos alvores do século XIX, funcionou como sede da administração municipal até 1926. Na esquina deste edifício existia uma sineta que anunciava os julgamentos públicos realizados junto ao pelourinho; retirada aquando da transferência da sede concelhia, acabaria por regressar ao seu lugar de origem a 8 de setembro de 1974, fruto de uma forte iniciativa popular no contexto do pós-25 de Abril.
Até ao limiar do século XX, o fabrico da manteiga assumia um caráter estritamente artesanal e doméstico: o leite repousava em cântaros de barro e a nata era demoradamente batida num “touço”.
O ponto de viragem ocorreu em 1896, ano em que se crê terem sido introduzidas em Cambra as primeiras desnatadeiras centrífugas, abrindo definitivamente caminho à industrialização do setor dos laticínios. A excelência da produção local depressa se impôs, levando a que a manteiga «Alliança», da firma Pinho, Soares, Leite & C.ª, se tornasse fornecedora oficial da Casa Real em 1905. No ano seguinte, a Martins & Rebello — empresa fundada em 1901 — estabeleceu-se no concelho, inaugurando em 1906 uma importante unidade fabril no Pinheiro Manso.
Este dinamismo despoletou um notável efeito em cadeia, criando um verdadeiro ecossistema industrial. A comercialização da manteiga exigia embalagens, o que impulsionou o desenvolvimento da latoaria, exemplificado pelas firmas A. Ribeiro & Irmão (1914) e Almeida & Freitas (1922). Por sua vez, o acondicionamento pedia madeira, dinamizando as serrações; já a maquinaria fabril fomentou o aparecimento de oficinas de reparação, que evoluíram para importantes unidades metalúrgicas.
Para alimentar este tecido produtivo em expansão, a eletrificação tornou-se um fator essencial. Em 1922, Luiz de Sousa Moreira ligou os primeiros dínamos e, entre 1925 e 1927, ergueu-se a Central Hidroelétrica do Caima. A partir de 1928, esta infraestrutura passou a fornecer energia a várias unidades fabris e possibilitou a iluminação pública e, gradualmente, a eletrificação doméstica.
Paralelamente, parte significativa dos equipamentos coletivos do concelho deveu-se à benemerência e à iniciativa privada. O percurso de Luiz Bernardo de Almeida é paradigmático: tendo emigrado ainda criança para o Brasil, onde construiu fortuna com uma fundição, regressou para investir na sua terra.
Em 1913, doou ao Estado a Escola da Praça, em Macieira de Cambra, custeou troços de estrada e, em parceria com o seu primo António de Almeida Pinho, patrocinou a edificação de um vasto complexo destinado a servir de hospital, cuja primeira pedra foi lançada em 1915. Embora nunca tenha cumprido a sua função clínica original, o imponente edifício albergou um Seminário Apostólico entre 1935 e 1958, servindo posteriormente como casa de saúde.
O final de 1926 ditaria uma mudança geopolítica fraturante. A 31 de dezembro, o Decreto n.º 12 976 extinguiu oficialmente o concelho de Macieira de Cambra, criando, em sua substituição, o município de Vale de Cambra. A sede administrativa foi transferida para o lugar da Gandra, que adotou, desde logo, a nova designação do concelho. O preâmbulo do diploma justificava a alteração com o isolamento geográfico de Macieira, arredada dos principais eixos de comunicação, e com a crescente concentração da atividade comercial e industrial na Gandra, polo onde já se realizava a feira secular.
Como seria de prever, a decisão gerou forte contestação. Num clima de tensão cívica, um novo decreto (agosto de 1927) agendou um plebiscito para 11 de dezembro desse ano. Os resultados oficiais nunca chegaram a ser conhecidos, prevalecendo na memória oral a convicção de que a votação terá sido sumariamente anulada por ordem governamental. Embora seja tentador atribuir a vitória de uma ou de outra fação às clivagens políticas da época (entre monárquicos e republicanos), o rigor exige prudência, uma vez que as fontes documentais não demonstram conclusivamente essa hipótese.
Naturalmente, os grandes sobressaltos da História nacional e global encontraram também um profundo eco local. Em 1917, vários soldados do concelho integraram as trincheiras da Primeira Guerra Mundial com o Corpo Expedicionário Português em França, enquanto a imprensa local publicava, com angústia, as listas de mobilizados e das famílias com direito a pensão.
O regresso das tropas, em 1918, ficou tristemente marcado pelo flagelo da epidemia pneumónica. Mais tarde, os reflexos da Segunda Guerra Mundial fariam sentir-se através das restrições do racionamento e da proliferação do mercado negro.
É também neste período que muitos cambrenses, atraídos pela urgência económica, se dedicaram à dura exploração das minas de volfrâmio.

