Conjunto de Bronzes de Vila Cova de Perrinho

Os Bronzes de Vila Cova de Perrinho

No Museu Municipal de Vale de Cambra há um pequeno conjunto de objetos de bronze com cerca de três mil anos: machados, cinzeis, punhais, fragmentos de uma pulseira. Aparecem na bibliografia arqueológica portuguesa e estrangeira com o nome de “depósito de Vila Cova de Perrinho”. O problema é que esse depósito, muito provavelmente, nunca existiu.

É esta a conclusão de Carlo Bottaini e Alexandre Rodrigues (2011) no artigo “O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: Caracterização química e reavaliação dos contextos“, publicado na revista Oppidum. Para lá chegar, os autores juntaram análises químicas dos metais, o estudo tipológico das peças, a leitura do terreno e a memória de quem lá estava.

Um eucalipto, uma vala, um punhado de bronzes

Por volta de 1959 ou 1960, no lugar do Rossio, em Vila Cova de Perrinho, trabalhadores agrícolas abriam uma vala para plantar um eucalipto quando encontraram vários objetos de metal, “a cerca de 15 centímetros da superfície”, e repartiram-nos entre eles (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 35)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..

Mais tarde, foram reunidos e entregues ao Dr. Ems Ribeiro, chefe da Secretaria da Câmara Municipal de Vale de Cambra, que sonhava com a criação de um museu local. Esse museu só abriu portas em 1997, e o espólio acabou por ser doado pelos herdeiros de Ems Ribeiro.

Em 1963, D. Domingos de Pinho Brandão publicou a notícia do achado: um vaso cerâmico, três machados, três cinzeis, dois punhais, fragmentos de pulseira, fragmentos de chapa e um objeto indeterminado. Considerou-o espólio de uma sepultura, mas sem apresentar argumentos que sustentassem essa interpretação (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 28)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39.. Deixou também a promessa de, noutra ocasião, fazer “um estudo mais desenvolvido”(Brandão, 1963, p. 114)Brandão, D. P. (1963). Achado da «época do Bronze» de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra. Lucerna, 3(3), 114–118.. Esse estudo nunca foi feito.

Desenho do conjunto segundo Philine Kalb (Kalb, 1980, p. 43)Kalb, P. (1980). Zur Atlantischen Bronzezeit in Portugal. Germania, 1–2(58), 25–59..

Sepultura, depósito ou esconderijo?

A partir do final dos anos 70, o conjunto deixa de ser de uma sepultura e designa-se como um “depósito”, um “esconderijo” ou um “entesouramento” (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 35)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39.. Vários autores reúnem uma dezena de obras onde usam estas designações (Coffyn, 1983; Kalb, 1980; Monteagudo, 1977; Vilaça, 2006)Coffyn, A. (1983). La fin de l’Âge du Bronze dans le centre-Portugal. O Arqueólogo Português, Série IV(1), 169–196.Kalb, P. (1980). Zur Atlantischen Bronzezeit in Portugal. Germania, 1–2(58), 25–59.Monteagudo, L. (1977). Die beile auf der Iberischen Halbinsel: XI-Band. C. H. Beck’sche Verlagsbuchhandlung.Vilaça, R. (2006). Depósitos de Bronze do Território Português Um debate em aberto. Separata de o Arqueólogo Português. O Arqueólogo Português, 24(serie 4), 9–150., embora “sem que se tenham acrescentado outros pormenores” sobre as circunstâncias do achado (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 35)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..

Isto é mais comum do que parece. Um primeiro autor propõe uma leitura, um segundo cita-o, um terceiro cita o segundo. Ao fim de algumas décadas, a hipótese ganhou a solidez de um facto apenas por ter sido repetida. Os autores descrevem o fenómeno com uma expressão de Raquel Vilaça: “interpretações mais ou menos livres de associações e contextos” (Vilaça, 2006, p. 36)Vilaça, R. (2006). Depósitos de Bronze do Território Português Um debate em aberto. Separata de o Arqueólogo Português. O Arqueólogo Português, 24(serie 4), 9–150..

Não se trata de uma questão de nomenclatura. No Bronze Final do ocidente peninsular, depositar deliberadamente objetos de metal era “um fenómeno social relevante” (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 35)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39., que obedecia a regras codificadas de conteúdo e de localização (Hamon & Quilliec, 2008)Hamon, C., & Quilliec, B. (Eds.). (2008). Hoards from the Neolithic to the Metal Ages. Technical and codified practices. Session of the XIth Annual Meeting of the European Association of Archaeologists, BAR International Series.. Chamar “depósito” a um conjunto é afirmar que alguém, há três mil anos, o reuniu e enterrou de propósito.

Um achado ou vários?

O «depósito» de Vila Cova de Perrinho provavelmente nunca existiu como conjunto: foram, pelo menos, três achados.

1963 · Pinho Brandão (Lucerna): espólio de uma sepultura.

Final dos anos 70 em diante: «depósito», «esconderijo» ou «entesouramento» (Monteagudo, Kalb e outros).

Ver o argumento
Em que se apoia
Em 1963, sem argumentos que a sustentem: o estudo mais desenvolvido que Brandão prometeu nunca foi feito. Depois, a repetição da designação sem crítica.
Limite
Vilaça (2006) já criticava as interpretações mais ou menos livres dos depósitos.

2011 · Bottaini e Rodrigues (Oppidum, n.º V): pelo menos três núcleos, dispersos no tempo e no espaço.

Ver o argumento
Em que se apoia
Testemunhos orais e localização. O vaso estaria a cerca de 60 m a oeste da Necrópole do Rossio. Cinco peças metálicas foram achadas ao arrancar um eucalipto. As restantes são pouco conhecidas.
Limite
Não se sabe quais são as cinco peças nem a que núcleo pertence cada uma, e a análise química não distingue núcleos.
Um só conjunto
Núcleo 1
Núcleos 2 e 3 · não se sabe quais peças pertencem a cada um

Como a leitura mudou

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O que sabemos a partir dos objetos?

Neste artigo, antes de discutirem o contexto, os autores olham para as peças e revelaram a história de cada uma.

Os machados de talão. São três, cada um de uma variante diferente: um com duas argolas, outro com uma, e um terceiro, hoje desaparecido, trabalhado apenas numa face – veja o item 3 do desenho de conjunto acima – (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 29)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39.. São produções típicas do mundo atlântico, com muitos paralelos no centro e norte de Portugal e na Galiza (Bottaini & Rodrigues, 2011, pp. 28-29)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39., e chegam mesmo a aparecer em depósitos da Sardenha e da Sicília (Giardino, 1995, p. 218)Giardino, C. (1995). Il Mediterraneo Occidentale fra XIV ed VIII secolo a.C. Cerchie minerarie e metallurgiche. BAR Publishing. https://doi.org/10.30861/9780860547938.

Fotografias de MMVC/Aníbal Lemos e desenhos de Alexandre Rodrigues (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 29)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..
Fotografias de MMVC/Aníbal Lemos e desenhos de Alexandre Rodrigues (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 29)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..

Os cinzeis. Dos três cinzéis, dois são simples, de secção quadrangular. O terceiro, que Pinho Brandão tomou por um machado, é um cinzel de alvado, isto é, com um encaixe oco para o cabo (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 30)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39.. Na Península Ibérica é uma raridade: em Portugal só se conhece outro exemplar, o do Monte da Penha, em Guimarães, guardado no Museu da Sociedade Martins Sarmento (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 30)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..

Os punhais. Um está inteiro e o outro partido em dois. São do tipo Porto de Mós, “produção típica do Bronze final na região entre Douro e Tejo” (Coffyn, 1983, p. 217)Coffyn, A. (1983). La fin de l’Âge du Bronze dans le centre-Portugal. O Arqueólogo Português, Série IV(1), 169–196.. Pela forma do encabamento, contam-se entre os modelos mais arcaicos desta família e são atribuídos ao Bronze Final II (Correia, 1988, p. 202)Correia, V. H. (1988). Um punhal do Bronze final, de Arraiolos. Arqueologia, (17), 201–203..

Fotografias de MMVC/Aníbal Lemos e desenhos de Alexandre Rodrigues (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 29)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..
Fotografias de MMVC/Aníbal Lemos e desenhos de Alexandre Rodrigues (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 29)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..

Os fragmentos de bronze. Os fragmentos de chapa de bronze foram lidos como restos de um capacete de crista (Coffyn, 1983, p. 390)Coffyn, A. (1983). La fin de l’Âge du Bronze dans le centre-Portugal. O Arqueólogo Português, Série IV(1), 169–196., objeto raríssimo na Península e conhecido sobretudo pelo achado da Ria de Huelva (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 32)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39.. Os autores duvidam: os fragmentos são “informes e distorcidos”, o que torna essa interpretação “pouco provável” (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 32)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..

A pulseira e o vaso. Da pulseira restam dois fragmentos decorados com linhas paralelas, parecidos com uma peça do Castro da Senhora da Guia, em Baiões (Silva, 2007, p. 265)Silva, A. C. F. (2007). A Cultura Castreja no noroeste peninsular (2.a edição). Câmara Municipal de Paços de Ferreira.. O vaso cerâmico, de pasta grosseira e escura, desapareceu. Há notícias de que estará nas mãos de um particular, mas ainda ninguém o conseguiu confirmar (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 32)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..

Desenhos de Alexandre Rodrigues (Bottaini & Rodrigues, 2011).

A composição da liga de bronze

As peças foram analisadas por fluorescência de raios-x, uma técnica que identifica os elementos químicos presentes sem destruir o objeto. Parte das análises foi feita nos laboratórios do Museu Arqueológico Nacional de Madrid (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 32)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..

O resultado é simples. Todas as peças analisadas são de bronze binário, uma liga de cobre e estanho quase sem outros elementos (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 33)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39.. O bracelete tem 79,7% de cobre e 20,3% de estanho, e as chapas cerca de 92% e 8% (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 32, Tabela 1)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..

As formas são muito variadas, mas a receita é sempre a mesma: a do Bronze Final do centro de Portugal, “marcado pela monotonia de ligas binárias bastante padronizadas” (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 33)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39.. Mais a norte, no Minho e em Trás-os-Montes, surgem numa fase tardia bronzes com chumbo, mas nesta região são “praticamente desconhecidos” (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 33)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39.. Os objetos de Vila Cova de Perrinho têm formas atlânticas, mas foram muito provavelmente feitos com a metalurgia da sua própria região.

Perguntar a quem lá estava

Do encontro com a comunidade, os autores descobriram que esta “ainda guardava a memória do achado” (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 36)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39.: havia quem tivesse participado nele e quem tivesse ouvido contar.

Essas conversas mudaram um pouco a história. O “conjunto de Vila Cova de Perrinho” corresponde a, “pelo menos três núcleos distintos”, dispersos no tempo e no espaço (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 36)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39.:

  • O primeiro é o vaso cerâmico, que ficou localmente conhecido como a “urna das cinzas” (PAP, 1955, p. 3)PAP. (1955). D. Domingos de Pinho Brandão. Episódios. Defesa de Arouca, 3.. Foi encontrado cerca de 60 metros a oeste da “Necrópole” do Rossio, dentro de “círculos de terra negra, ou mesclada de carvão” (PAP, 1955, p. 3)PAP. (1955). D. Domingos de Pinho Brandão. Episódios. Defesa de Arouca, 3.. No fundo do buraco havia outros vasos e cinzas (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 36)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..
  • O segundo são cinco peças metálicas, encontradas pelo Sr. Joaquim Oliveira do Pinhel ao arrancar um eucalipto. Vários habitantes indicaram-no aos autores como o responsável pela descoberta (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 36, nota 9)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39., tendo sido possível chegar à fala com ele. É este o episódio que Pinho Brandão relata.
  • O terceiro são as restantes peças metálicas. Sobre elas não foi possível apurar quase nada, mas tudo indica que formam um conjunto à parte (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 36)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..

Com isto, a leitura de 1963 e as que se seguiram deixam de se sustentar. Não houve uma sepultura com um vaso e armas lado a lado, nem um único esconderijo de bronzes. Houve várias deposições numa mesma área, cuja relação entre si continua por esclarecer. Nas palavras dos autores, a bibliografia criou um “depósito” que “nos parece nunca ter existido” (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 36)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..

A paisagem à volta

O Rossio não é um sítio qualquer. É um pequeno planalto com cerca de 1 km², atravessado por duas linhas de água e ladeado por duas elevações: o Monte do Crasto, a oeste, com 610 metros, e o Crasto de Cambra, a leste, hoje muito desfigurado por uma pedreira (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 33)Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39..

Numa área de cerca de 1,5 km² foram identificados oito sítios arqueológicos, do Neolítico à Idade do Bronze (Bottaini & Rodrigues, 2011, p. 33). Sete são funerários: as mamoas do Rossio e do Crasto e a Necrópole do Rossio, cinco fossas abertas no solo com cerâmica do Bronze Final (Queiroga, 2001, p. 120)Queiroga, F. (2001). Inventário Patrimonial de Vale de Cambra: I - Arqueologia. Câmara Municipal de Vale de Cambra.. O oitavo poderá ser um povoado proto-histórico, de que há notícia de mós manuais e outros materiais (Queiroga, 2001, p. 116)Queiroga, F. (2001). Inventário Patrimonial de Vale de Cambra: I - Arqueologia. Câmara Municipal de Vale de Cambra..

O nome Crasto de Cambra não é um pormenor. Segundo a proposta do toponimista Joaquim da Silveira, retomada por Tavares (Tavares, 2013), é muito provavelmente o castro que deu nome à terra e ao concelho, a antiga Calambria. Os bronzes do Rossio apareceram, literalmente, à sombra do lugar de onde vem o nome de Vale de Cambra.

Referências Bibliográficas

Bottaini, C., & Rodrigues, A. (2011). O conjunto de metais de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra: caracterização química e reavaliação dos contextos. Oppidum - Revista de Arqueologia, História e Património, (V), 27–39.
Brandão, D. P. (1963). Achado da «época do Bronze» de Vila Cova de Perrinho, Vale de Cambra. Lucerna, 3(3), 114–118.
Coffyn, A. (1983). La fin de l’Âge du Bronze dans le centre-Portugal. O Arqueólogo Português, Série IV(1), 169–196.
Correia, V. H. (1988). Um punhal do Bronze final, de Arraiolos. Arqueologia, (17), 201–203.
Giardino, C. (1995). Il Mediterraneo Occidentale fra XIV ed VIII secolo a.C. Cerchie minerarie e metallurgiche. BAR Publishing.
Hamon, C., & Quilliec, B. (Eds.). (2008). Hoards from the Neolithic to the Metal Ages. Technical and codified practices. Session of the XIth Annual Meeting of the European Association of Archaeologists, BAR International Series.
Kalb, P. (1980). Zur Atlantischen Bronzezeit in Portugal. Germania, 1–2(58), 25–59.
Monteagudo, L. (1977). Die beile auf der Iberischen Halbinsel: XI-Band. C. H. Beck’sche Verlagsbuchhandlung.
PAP. (1955). D. Domingos de Pinho Brandão. Episódios. Defesa de Arouca, 3.
Queiroga, F. (2001). Inventário Patrimonial de Vale de Cambra: I - Arqueologia. Câmara Municipal de Vale de Cambra.
Silva, A. C. F. (2007). A Cultura Castreja no noroeste peninsular (2.a edição). Câmara Municipal de Paços de Ferreira.
Vilaça, R. (2006). Depósitos de Bronze do Território Português Um debate em aberto. Separata de o Arqueólogo Português. O Arqueólogo Português, 24(serie 4), 9–150.
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